terça-feira, outubro 13, 2009
sublime
Uma sublime caminhada tardia no passadiço de madeira à ida e contra um sol poente à vinda. Chegar ao limite do paredão junto ao farolim, sentir as entranhas do mar. Não me recordar nem poema, nem imagem, nem música semelhante ao lugar e ao momento. Eu, uma brisa e uma espécie de navegação irreal. Depois o sol a desfazer-se no espelho de sal e a areia molhada numa praia quase deserta com gaivotas a voar aos círculos como se também eu pudesse fazer parte dessa dança. Convite. Passos inseguros ainda, pura magia caminhar no movimento das coisas incertas. Surfistas da tarde. Esquecer as nódoas negras da mudança e os braços doridos de carregar caixotes e malas e vida. Pergunto como pude deixar passar tanto tempo sem fins de tarde assim a troco de um computador fiel, às vezes virulento, à frente do nariz. Não levei máquina. Impossível capturar o aroma. Valiosas coisas de graça.
segunda-feira, outubro 12, 2009
terça-feira, outubro 06, 2009
sem tempo para arrelias
à tarde
(e sem o clik mágico da Margarida e do Zé Ricardo, mas com um batido de frutas tropical e o sorriso ímpar da Sara)
com abraços
mgm
sábado, setembro 26, 2009
quarta-feira, setembro 16, 2009
às portas - das eleições -
enviou a Manuela, envio-vos a vós
Eduardo Prado Coelho, antes de falecer (25/08/2007),
teve a lucidez de nos deixar esta reflexão, sobre nós todos,
por isso façam uma leitura atenta.
Precisa-se de matéria prima para construir um País
Eduardo Prado Coelho - in Público
A crença geral anterior era de que Santana Lopes não servia,
bem como Cavaco, Durão e Guterres.
Agora dizemos que Sócrates não serve.
E o que vier depois de Sócrates também não servirá para nada.
Por isso começo a suspeitar que o problema não está no trapalhão
que foi Santana Lopes ou na farsa que é o Sócrates.
O problema está em nós. Nós como povo.
Nós como matéria prima de um país.
Porque pertenço a um país onde a ESPERTEZA é a moeda
sempre valorizada, tanto ou mais do que o euro.
Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude
mais apreciada do que formar uma família
baseada em valores e respeito aos demais.
Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais
poderão ser vendidos como em outros países, isto é,
pondo umas caixas nos passeios onde se paga por um só jornal
E SE TIRA UM SÓ JORNAL,
DEIXANDO-SE OS DEMAIS ONDE ESTÃO.
Pertenço ao país onde as EMPRESAS PRIVADAS são fornecedoras particulares
dos seus empregados pouco honestos, que levam para casa,
como se fosse correcto, folhas de papel, lápis, canetas, clips e tudo o que possa ser útil
para os trabalhos de escola dos filhos... e para eles mesmos.
Pertenço a um país onde as pessoas se sentem espertas porque
conseguiram comprar um descodificador falso da TV Cabo,
onde se frauda a declaração de IRS para não pagar ou pagar menos impostos.
Pertenço a um país:
-Onde a falta de pontualidade é um hábito;
-Onde os directores das empresas não valorizam o capital humano.
-Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruas e, depois,
reclamam do governo por não limpar os esgotos.
-Onde pessoas se queixam que a luz e a água são serviços caros.
-Onde não existe a cultura pela leitura (onde os nossos jovens dizem que
é 'muito chato ter que ler') e não há consciência nem memória
política, histórica nem económica.
-Onde os nossos políticos trabalham dois dias por semana para aprovar projectos e leis
que só servem para caçar os pobres, arreliar a classe média
e beneficiar alguns.
Pertenço a um país onde as cartas de condução e as declarações médicas
podem ser 'compradas', sem se fazer qualquer exame.
-Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços,
ou um inválido, fica em pé no autocarro, enquanto a pessoa que está sentada
finge que dorme para não lhe dar o lugar.
-Um país no qual a prioridade de passagem é para o carro
e não para o peão.
-Um país onde fazemos muitas coisas erradas,
mas estamos sempre a criticar os nossos governantes.
Quanto mais analiso os defeitos de Santana Lopes e de Sócrates,
melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem
corrompi um guarda de trânsito para não ser multado.
Quanto mais digo o quanto o Cavaco é culpado, melhor sou eu como português,
apesar de que ainda hoje pela manhã explorei um cliente que confiava em mim,
o que me ajudou a pagar algumas dívidas.
Não. Não. Não. Já basta.
Como 'matéria prima' de um país, temos muitas coisas boas,
mas falta muito para sermos os homens e as mulheres que o nosso país precisa.
Esses defeitos, essa 'CHICO-ESPERTERTICE PORTUGUESA' congénita,
essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui
até se converter em casos escandalosos na política, essa falta de qualidade humana,
mais do que Santana, Guterres, Cavaco ou Sócrates,
é que é real e honestamente má, porque todos eles são portugueses como nós,
ELEITOS POR NÓS. Nascidos aqui, não noutra parte...
Fico triste.
Porque, ainda que Sócrates se fosse embora hoje,
o próximo que o suceder terá que continuar a trabalhar com a mesma matéria prima
defeituosa que, como povo, somos nós mesmos.
E não poderá fazer nada...
Não tenho nenhuma garantia de que alguém possa fazer melhor,
mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a
erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá.
Nem serviu Santana, nem serviu Guterres, não serviu Cavaco,
nem serve Sócrates e nem servirá o que vier.
Qual é a alternativa ?
Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei
com a força e por meio do terror ?
Aqui faz falta outra coisa. E enquanto essa 'outra coisa' não comece
a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os lados,
ou como queiram, seguiremos igualmente condenados,
igualmente estancados... igualmente abusados !
É muito bom ser português. Mas quando essa portugalidade autóctone começa
a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento
como Nação, então tudo muda...
Não esperemos acender uma vela a todos os santos,
a ver se nos mandam um messias.
Nós temos que mudar. Um novo governante com os mesmos portugueses
nada poderá fazer.
Está muito claro... Somos nós que temos que mudar.
Sim, creio que isto encaixa muito bem em tudo o que anda a acontecer-nos:
Desculpamos a mediocridade de programas de televisão nefastos e,
francamente, somos tolerantes com o fracasso.
É a indústria da desculpa e da estupidez.
Agora, depois desta mensagem, francamente, decidi procurar o responsável,
não para o castigar, mas para lhe exigir (sim, exigir)
que melhore o seu comportamento e que não se faça de mouco,
de desentendido.
Sim, decidi procurar o responsável e ESTOU SEGURO DE QUE O ENCONTRAREI
QUANDO ME OLHAR NO ESPELHO.
AÍ ESTÁ. NÃO PRECISO PROCURÁ-LO NOUTRO LADO.
E você, o que pensa ?... MEDITE !
PARTILHE, contribua!
EDUARDO PRADO COELHO
teve a lucidez de nos deixar esta reflexão, sobre nós todos,
por isso façam uma leitura atenta.
Precisa-se de matéria prima para construir um País
Eduardo Prado Coelho - in Público
A crença geral anterior era de que Santana Lopes não servia,
bem como Cavaco, Durão e Guterres.
Agora dizemos que Sócrates não serve.
E o que vier depois de Sócrates também não servirá para nada.
Por isso começo a suspeitar que o problema não está no trapalhão
que foi Santana Lopes ou na farsa que é o Sócrates.
O problema está em nós. Nós como povo.
Nós como matéria prima de um país.
Porque pertenço a um país onde a ESPERTEZA é a moeda
sempre valorizada, tanto ou mais do que o euro.
Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude
mais apreciada do que formar uma família
baseada em valores e respeito aos demais.
Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais
poderão ser vendidos como em outros países, isto é,
pondo umas caixas nos passeios onde se paga por um só jornal
E SE TIRA UM SÓ JORNAL,
DEIXANDO-SE OS DEMAIS ONDE ESTÃO.
Pertenço ao país onde as EMPRESAS PRIVADAS são fornecedoras particulares
dos seus empregados pouco honestos, que levam para casa,
como se fosse correcto, folhas de papel, lápis, canetas, clips e tudo o que possa ser útil
para os trabalhos de escola dos filhos... e para eles mesmos.
Pertenço a um país onde as pessoas se sentem espertas porque
conseguiram comprar um descodificador falso da TV Cabo,
onde se frauda a declaração de IRS para não pagar ou pagar menos impostos.
Pertenço a um país:
-Onde a falta de pontualidade é um hábito;
-Onde os directores das empresas não valorizam o capital humano.
-Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruas e, depois,
reclamam do governo por não limpar os esgotos.
-Onde pessoas se queixam que a luz e a água são serviços caros.
-Onde não existe a cultura pela leitura (onde os nossos jovens dizem que
é 'muito chato ter que ler') e não há consciência nem memória
política, histórica nem económica.
-Onde os nossos políticos trabalham dois dias por semana para aprovar projectos e leis
que só servem para caçar os pobres, arreliar a classe média
e beneficiar alguns.
Pertenço a um país onde as cartas de condução e as declarações médicas
podem ser 'compradas', sem se fazer qualquer exame.
-Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços,
ou um inválido, fica em pé no autocarro, enquanto a pessoa que está sentada
finge que dorme para não lhe dar o lugar.
-Um país no qual a prioridade de passagem é para o carro
e não para o peão.
-Um país onde fazemos muitas coisas erradas,
mas estamos sempre a criticar os nossos governantes.
Quanto mais analiso os defeitos de Santana Lopes e de Sócrates,
melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem
corrompi um guarda de trânsito para não ser multado.
Quanto mais digo o quanto o Cavaco é culpado, melhor sou eu como português,
apesar de que ainda hoje pela manhã explorei um cliente que confiava em mim,
o que me ajudou a pagar algumas dívidas.
Não. Não. Não. Já basta.
Como 'matéria prima' de um país, temos muitas coisas boas,
mas falta muito para sermos os homens e as mulheres que o nosso país precisa.
Esses defeitos, essa 'CHICO-ESPERTERTICE PORTUGUESA' congénita,
essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui
até se converter em casos escandalosos na política, essa falta de qualidade humana,
mais do que Santana, Guterres, Cavaco ou Sócrates,
é que é real e honestamente má, porque todos eles são portugueses como nós,
ELEITOS POR NÓS. Nascidos aqui, não noutra parte...
Fico triste.
Porque, ainda que Sócrates se fosse embora hoje,
o próximo que o suceder terá que continuar a trabalhar com a mesma matéria prima
defeituosa que, como povo, somos nós mesmos.
E não poderá fazer nada...
Não tenho nenhuma garantia de que alguém possa fazer melhor,
mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a
erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá.
Nem serviu Santana, nem serviu Guterres, não serviu Cavaco,
nem serve Sócrates e nem servirá o que vier.
Qual é a alternativa ?
Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei
com a força e por meio do terror ?
Aqui faz falta outra coisa. E enquanto essa 'outra coisa' não comece
a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os lados,
ou como queiram, seguiremos igualmente condenados,
igualmente estancados... igualmente abusados !
É muito bom ser português. Mas quando essa portugalidade autóctone começa
a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento
como Nação, então tudo muda...
Não esperemos acender uma vela a todos os santos,
a ver se nos mandam um messias.
Nós temos que mudar. Um novo governante com os mesmos portugueses
nada poderá fazer.
Está muito claro... Somos nós que temos que mudar.
Sim, creio que isto encaixa muito bem em tudo o que anda a acontecer-nos:
Desculpamos a mediocridade de programas de televisão nefastos e,
francamente, somos tolerantes com o fracasso.
É a indústria da desculpa e da estupidez.
Agora, depois desta mensagem, francamente, decidi procurar o responsável,
não para o castigar, mas para lhe exigir (sim, exigir)
que melhore o seu comportamento e que não se faça de mouco,
de desentendido.
Sim, decidi procurar o responsável e ESTOU SEGURO DE QUE O ENCONTRAREI
QUANDO ME OLHAR NO ESPELHO.
AÍ ESTÁ. NÃO PRECISO PROCURÁ-LO NOUTRO LADO.
E você, o que pensa ?... MEDITE !
PARTILHE, contribua!
EDUARDO PRADO COELHO
terça-feira, setembro 15, 2009
sábado, agosto 29, 2009
doce
A atmosfera medieval vem da cidade renascida à noite. Oiço ainda a música da varanda, as coisas que a minha varanda já ouviu, enciclopédia de sons. Depois da meia-noite a coruja branca vem do castelo e sobrevoa os prédios antigos, como um grifo, numa cantoria arrepiante anunciando sombrias desgraças, não fosse de um branco fluorescente fantasma como uma companhia conheço-lhe as asas e o esgar. Às vezes vozes, normalmente, o silêncio de um mar longínquo trincheirado pela serra. Conheço-os todos – os sons. Fui-os guardando neste metro quadrado de fascínio.
A verdade é que já me levaram as tralhas. Custam-me o peso dos papéis. As memórias.
A verdade é que já me levaram as tralhas. Custam-me o peso dos papéis. As memórias.
Parece custar mais largar o que não presta, penso.
D. O telefonou hoje: era para perguntar se gosta de doce de tomate ou de abóbora? Então não gosto?!!! Claro que sim.
Já foi embora?
Estou de partida.
Quando voltar passo em sua casa para lhe dar um frasco. Lembra-se do meu desenho a pastel? Era pastel de quê? Aquilo ficou bem? Se calhar deveria melhorar? Lembra-se? Era uma casa com árvores…
Pastel seco. Lembro-me bem. Vá tentando, vá descobrindo.
D. O telefonou hoje: era para perguntar se gosta de doce de tomate ou de abóbora? Então não gosto?!!! Claro que sim.
Já foi embora?
Estou de partida.
Quando voltar passo em sua casa para lhe dar um frasco. Lembra-se do meu desenho a pastel? Era pastel de quê? Aquilo ficou bem? Se calhar deveria melhorar? Lembra-se? Era uma casa com árvores…
Pastel seco. Lembro-me bem. Vá tentando, vá descobrindo.
É que gostava de experimentar a tela, foi pena a operação, perdi muitos meses, não experimentei…ainda experimentei a aguarela mas a professora disse que tinha de pintar como a água, não é? aquilo ficou estranho, carregado, precisava arranjar...e ainda tenho a maleta e os fascículos de pintura…voltei a inscrever-me, queria aprender...
Eu sei.
Quando voltar diga-me que eu passo aí e levo o doce.
Quando eu voltar…um frasco doce à espera.
Uma partida deve ser leve como aguarela. sinto. a chegada, doce.
quarta-feira, agosto 26, 2009
“Como Nós”.
António Lobo Antunes
"Espero por ti cá em baixo enquanto a paciência azul das ondas escreve o teu nome com gestos de alga na praia e um rosto de aguarela me fita, imóvel, de um segundo andar, de tal maneira real que decerto não existiu nunca um rosto tão espantado como o meu espanto de ninguém me responder se bato à porta da casa onde vivo e que me aperta os ombros como um casaco emprestado, espero por ti com a luzinha de um cigarro na língua a fim de que me reconheças na escuridão destas duas da tarde demasiado claras, espero por ti a tremer de não ter febre e despenteado pelo vento que não há, o cão afasta-se desiludido como tudo se afasta do meu corpo, mesmo a sombra enrodilhada de vergonha em torno dos sapatos e quando as sombras se envergonham de nós mais vale desistir, trancarmo-nos no quarto de banho e ficar a ver no espelho o rosto que não somos já, que não seremos mais, espero por ti a tremer como um namorado muito feio espera, à chuva, de crisântemos outonais na mão, a namorada também feia que se esqueceu dele, de nariz nas cortinas a assistir ao Domingo, espero por ti, e nisto o automóvel ancora no lancil e no banco traseiro, sozinha, o teu sorriso descobre-me e caminho ao teu encontro, a medo, de joelhos aflitos, para te explicar as girafas do Jardim Zoológico indiferentes ao estrondo dos altifalantes, tão ruidoso como o silêncio do meu amor por ti."
António Lobo Antunes
"Espero por ti cá em baixo enquanto a paciência azul das ondas escreve o teu nome com gestos de alga na praia e um rosto de aguarela me fita, imóvel, de um segundo andar, de tal maneira real que decerto não existiu nunca um rosto tão espantado como o meu espanto de ninguém me responder se bato à porta da casa onde vivo e que me aperta os ombros como um casaco emprestado, espero por ti com a luzinha de um cigarro na língua a fim de que me reconheças na escuridão destas duas da tarde demasiado claras, espero por ti a tremer de não ter febre e despenteado pelo vento que não há, o cão afasta-se desiludido como tudo se afasta do meu corpo, mesmo a sombra enrodilhada de vergonha em torno dos sapatos e quando as sombras se envergonham de nós mais vale desistir, trancarmo-nos no quarto de banho e ficar a ver no espelho o rosto que não somos já, que não seremos mais, espero por ti a tremer como um namorado muito feio espera, à chuva, de crisântemos outonais na mão, a namorada também feia que se esqueceu dele, de nariz nas cortinas a assistir ao Domingo, espero por ti, e nisto o automóvel ancora no lancil e no banco traseiro, sozinha, o teu sorriso descobre-me e caminho ao teu encontro, a medo, de joelhos aflitos, para te explicar as girafas do Jardim Zoológico indiferentes ao estrondo dos altifalantes, tão ruidoso como o silêncio do meu amor por ti."
segunda-feira, agosto 24, 2009
quinta-feira, agosto 20, 2009
segunda-feira, agosto 17, 2009
gosto do Oeste e do Atlântico...
da Ericeira ao Cabo da Roca. passando pelas Azenhas do Mar, o Magoito, a praia da Adraga e...principalmente a Foz do Lizandro. O mar malandro.
gosto da costa alentejana, até Sagres. tudo.
...de férias que não tive.
gosto da costa alentejana, até Sagres. tudo.
...de férias que não tive.
domingo, agosto 02, 2009
olharCE - nova revista
"Cultivar a permanência do olharCultivar a permanência do olhar nas fissuras do cotidiano – corpos e vidas – possibilita-nos a experiência de um tempo que escorre, e não apenas se precipita. Nessa dimensão de tempo escorredouro e dilatado – não-escorregadio – o espaço entre se configura: entre-imagem, entre-movimento, entre-lugar. O momento do tempo não administrado por completo pela lógica da mercadoria - o lugar dos possíveis. Onde o princípio esperança poderia muito bem morar.
Como diz Michel de Certeau, lugar é tudo o que se pode sonhar sobre o lugar. Mais: lugar é justamente o que poderia ser tão próximo, que nos faz estranhar o que é desumano e transcender, inventar, povoar o que nunca houve, mas que pode ser. O que de tão fronteiriço alcança os interespaços com uma lógica outra que nos ultrapassa, em nossa solidão. E – seria bom ousar dizer – simplesmente nos humaniza.
Em um processo de atualização ininterrupto, eis como o ato de dançar pode constituir-se num entre-lugar: como um regime de disponibilidade onde se coloca um corpo, independente de sua localização geográfica. Linha de fuga, que fizesse seu caminho de ida e, logo, voltasse, cumprindo seu avesso. Assim se pode dizer que dançar é tornar visível o que nos é familiar e, por isso mesmo, tornou-se invisível. Dançar é também desfamiliarizar – compor gesto e cena com corpos intensivos, potencializadores de encontros e afetos que nos vêm de um futuro nunca acontecido antes. Como diria o educador Paulo Freire: é função da arte criar o inédito viável – o que nunca se teve, mas que pode vir a ser.
A revista OLHARCE surge nesse contexto como uma das ações do projeto Bienal Internacional de Dança do Ceará/De Par Em Par, que nos anos pares, intervalares aos anos do Festival, investe em ações focadas em formação – artística e de público – centradas em três eixos: registro e memória; circulação; produção corpo-imagem.
O principal objetivo é dar visibilidade às ações que vêm sendo desenvolvidas na área da dança no Ceará, apostando em novos desdobramentos e conexões. Que os espaços, os artistas e os territórios aqui apresentados sejam do mundo, deslocando-se das limitações geográficas, habitando a terceira margem. Ou o outro lado que a imagem aponta: o que não se pode tocar, mas se adivinha.
Aqui estão relações que estabelecemos ao longo do período de dez anos. Movimento e pausa. É a isso que a Bienal Internacional de Dança se propõe: evidenciar relações – mais do que produtos, objetos, obras – e deixar ver a complexidade de nosso próprio tempo, em seus embates culturais, sociais, econômicos. Em seu discurso amoroso. Mover-se no nosso tempo, nos espaços do cotidiano que se pode ver que se move: voar entre eles. E trazer o devir para tão perto, que se pode encantar o hoje com o terceiro minuto da aurora.
No dorso desse cavalgar, o imaginado é tomado como uma estação. Onde as relações aqui vividas, através de uma produção artística diversa e, a um só tempo, próxima, possa provocar, ainda e sempre, não apenas o sonho, mas o exercício de sonhar."
David Linhares e Andréa Bardawil
Como diz Michel de Certeau, lugar é tudo o que se pode sonhar sobre o lugar. Mais: lugar é justamente o que poderia ser tão próximo, que nos faz estranhar o que é desumano e transcender, inventar, povoar o que nunca houve, mas que pode ser. O que de tão fronteiriço alcança os interespaços com uma lógica outra que nos ultrapassa, em nossa solidão. E – seria bom ousar dizer – simplesmente nos humaniza.
Em um processo de atualização ininterrupto, eis como o ato de dançar pode constituir-se num entre-lugar: como um regime de disponibilidade onde se coloca um corpo, independente de sua localização geográfica. Linha de fuga, que fizesse seu caminho de ida e, logo, voltasse, cumprindo seu avesso. Assim se pode dizer que dançar é tornar visível o que nos é familiar e, por isso mesmo, tornou-se invisível. Dançar é também desfamiliarizar – compor gesto e cena com corpos intensivos, potencializadores de encontros e afetos que nos vêm de um futuro nunca acontecido antes. Como diria o educador Paulo Freire: é função da arte criar o inédito viável – o que nunca se teve, mas que pode vir a ser.
A revista OLHARCE surge nesse contexto como uma das ações do projeto Bienal Internacional de Dança do Ceará/De Par Em Par, que nos anos pares, intervalares aos anos do Festival, investe em ações focadas em formação – artística e de público – centradas em três eixos: registro e memória; circulação; produção corpo-imagem.
O principal objetivo é dar visibilidade às ações que vêm sendo desenvolvidas na área da dança no Ceará, apostando em novos desdobramentos e conexões. Que os espaços, os artistas e os territórios aqui apresentados sejam do mundo, deslocando-se das limitações geográficas, habitando a terceira margem. Ou o outro lado que a imagem aponta: o que não se pode tocar, mas se adivinha.
Aqui estão relações que estabelecemos ao longo do período de dez anos. Movimento e pausa. É a isso que a Bienal Internacional de Dança se propõe: evidenciar relações – mais do que produtos, objetos, obras – e deixar ver a complexidade de nosso próprio tempo, em seus embates culturais, sociais, econômicos. Em seu discurso amoroso. Mover-se no nosso tempo, nos espaços do cotidiano que se pode ver que se move: voar entre eles. E trazer o devir para tão perto, que se pode encantar o hoje com o terceiro minuto da aurora.
No dorso desse cavalgar, o imaginado é tomado como uma estação. Onde as relações aqui vividas, através de uma produção artística diversa e, a um só tempo, próxima, possa provocar, ainda e sempre, não apenas o sonho, mas o exercício de sonhar."
David Linhares e Andréa Bardawil
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